Entrada

Movimento para a renovação da Mouraria lançou bases para a desejada requalificação

Associação Renovar a Mouraria faz voluntariado para a população do alto de um quinto andar e garante que o bairro não é mais inseguro do que qualquer outra zona da cidade lisboeta

Inês Andrade é formadora de professores, Nuno Franco está desempregado. Ambos habitam na Mouraria, bairro ao qual cedem horas em prol de uma população multicultural desfavorecida como não há igual em Lisboa. Esta zona degradada da cidade aguarda por uma transformação que promete mudar a sua face obscura. É por isso que lutam, quando há dois anos lideraram um movimento que se organizou na associação sociocultural Renovar a Mouraria.

Há gente um pouco de todo o lado. "Até do Porto", dizem Inês e Nuno, orgulhosos. Em busca de informações e dos mais variados tipos de ajuda, muitos moradores do bairro acedem a pé, a custo, à sede da associação, num alto quinto andar na Rua da Mouraria, com vista desafogada para o Martim Moniz.

Parte do bairro vai ser objecto de requalificação. O projecto, aprovado pela câmara e pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, orça em sete milhões de euros, metade dos quais inscritos no Quadro de Referência Estratégico Nacional. É o que anima os voluntários, que sempre trabalharam com esse objectivo. Há dois anos, assim que o presidente da autarquia aceitou o desafio, travaram uma petição que tinha como primeiro destinatário o Presidente da República. O texto, que ainda recolheu quatro mil adesões, chamava a atenção para essa "pérola" no centro de Lisboa, "abandonada, suja, degradada, moralmente abatida, em nada contribuindo para a fotografia do turista que passa", mas que "pela sua história, localização, beleza e diversidade" apresenta "um potencial habitacional, cultural e artístico, de lazer e turístico, que é urgente valorizar."

Criar emprego

O projecto A Mouraria - As Cidades Dentro da Cidade, desenvolvido em parceria pela câmara, a associação Casa da Achada, a EPUL e o Instituto da Droga e Toxicodependência, é para a Renovar a Mouraria motivo de orgulho. Inês e Nuno fazem uma pausa, olham-se e concordam: "Pressionámos um bocado, mas conseguimos. Estamos no terreno, ouvimos e sentimos a população. E a verdade é que fomos ouvidos. As ideias que transmitimos têm criado uma espécie de bola de neve."

A intervenção no espaço público mudará a face do bairro na Rua do Capelão, desde o Largo da Achada até ao Largo do Intendente. "Somos parceiros de dinamização sociocultural", assume Nuno Franco, que destaca as infra-estruturas para jovens e idosos, como complemento para ocupação dos tempos livres. "Mas há também o espaço para a indústria criativa, mais tarde um espaço museológico como a casa-museu da Severa", acrescenta Inês Andrade, enfatizando a tradição fadista do bairro. "O projecto ajudará a mudar a imagem do bairro, melhorará a auto-estima das pessoas, e o trabalho com as crianças poderá ter efeitos mais imediatos", nota Nuno Franco.

Os responsáveis associativos consideram "um mito" a insegurança no bairro. "É estigmatizante, apenas. Não me sinto mais insegura que em qualquer outra zona de Lisboa. O Intendente é apenas uma pequena parcela do bairro", justifica Inês Andrade. "Não há insegurança, há prostituição e algumas pessoas que se dedicam ao tráfico de droga", atira Nuno Franco, que sublinha o papel do IDT no projecto.

"É preciso ver que há gente em grandes dificuldades sociais. Mas essa parte não é da nossa competência. Achamos é que há condições para a criação de emprego, assim que a imagem do bairro seja transformada. O turismo poderá ajudar, pois propiciará a criação de novos espaços comerciais", antevê Nuno Franco.

"Se o projecto for bem sucedido, e temos razões para crer que sim, pois nem há sinais de atrasos, devendo avançar para concurso público em 2011, será de apostar na valorização do sector das artes e ofícios", corrobora Inês Andrade, que remata: "Poderemos ter uma infinidade de ateliers, já que o bairro tem muitas potencialidades. Resta saber como aproveitá-las, sem estragar a Mourar

Rosa Maria, jornal da Mouraria

Publicação multilingue e outros projectos

Quem procura a associação? "Somos procurados por estudantes, especialmente de Sociologia, Urbanismo, Arquitectura, professores, outras associações, que querem saber como trabalhamos. Tem sido uma bola de neve, que não pára de crescer", explica Inês Andrade. O arraial, em Junho, também sustenta a associação. A iniciativa terá como mote, este ano, o mundial de futebol. Como projecto estruturante, vai ser lançado em Junho o jornal Rosa Maria, jornal da Mouraria, destinado à grande comunidade multicultural do bairro. "Contamos ter várias colaborações multinlingue, e depois, on-line, a tradução integral dos textos. É uma iniciativa inédita, que versará o património, a cultura, a história, mas apenas um dos projectos que consideramos mais importantes", acrescenta. Um CD de fados, um livro de gastronomia, com receitas dos inúmeros países representados no bairro, e um festival multicultural, estão também nos planos.

por Carlos Filipe    in:  http://jornal.publico.clix.pt/noticia/

 

Rosa Maria, jornal da Mouraria

 

 
Requalificação do bairro da Cova da Moura está "paralisada"

Responsável do Moinho da Juventude diz que está a ser gasto muito dinheiro em estudos, mas ainda se espera pelas obras que deviam ter arrancado no fim de 2009

 

"Muito pouco foi feito" desde que, em Novembro de 2006, foi lançado o projecto de requalificação do bairro da Cova da Moura, na Amadora, diz Lieve Meersschaert, coordenadora da Associação Cultural Moinho da Juventude. A iniciativa governamental, integrada no projecto Bairros Críticos, prevê um investimento de mais de 100 milhões de euros em obras que deveriam ter arrancado antes do final de 2009.

"Estamos à espera que seja apresentado o plano de pormenor, mas não sabemos quando será", explicou Meersschaert ao PÚBLICO à margem do Seminário Universidades - Concurso Cova da Moura, realizado no dia 25 no Teatro Camões, em Lisboa, pela Trienal de Arquitectura 2010. "Tudo está paralisado, não podemos fazer nada, estamos com problemas enormes, a nossa creche está desde 2003 em contentores em segunda mão que tinham cinco anos de garantia".

A responsável do Moinho da Juventude, que vive desde os anos 80 na Cova da Moura, diz que o problema não é falta de dinheiro. "Fazem estudos enormes, muito bem pagos, e o que nós vemos é que se está a financiar técnicos e não a fazer alterações à realidade".

Depois da assinatura do protocolo, que envolve mais de 40 parceiros, em Novembro de 2006, a Comissão do Bairro conseguiu apresentar os termos de referência do projecto ainda em 2007, explicou Lieve Meersschaert. A partir daí, ficou à espera do plano de pormenor. "No ano passado fomos cinco vezes à Câmara [Municipal da Amadora], disseram-nos que as coisas iam avançar e não avançaram".

O PÚBLICO contactou o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), uma das entidades responsáveis pela requalificação da Cova da Moura, que confirmou que "os termos de referência para a aquisição de serviços para a elaboração do plano de pormenor foram elaborados e concluídos [...] e entregues em tempo no município da Amadora".

O caderno de encargos também já foi aprovado e o passo seguinte seria o lançamento do concurso, mas aguarda-se ainda "a aprovação do executivo camarário". Igualmente contactada, a câmara não quis prestar quaisquer declarações, dizendo apenas que haverá desenvolvimentos no processo durante o mês de Fevereiro, sem precisar quais.

O que está em causa não é o desaparecimento do bairro tal como existe hoje e o realojamento dos cerca de sete mil moradores. "Acreditamos muito mais em intervenções cirúrgicas", diz Lieve Meersschaert. "Queremos que a alma do bairro seja respeitada".

O estudo dos edifícios que podem ser recuperados já foi feito pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). "Esse trabalho já está feito", sublinha a responsável do Moinho da Juventude. "Mas continuamos sempre a discutir as mesmas coisas, desde 2006, e já estamos cansados. Pagam imenso dinheiro a empresas para fazer estudos quando há mais de três anos que os vários parceiros já chegaram a um acordo. Não é correcto que se esteja a gastar este dinheiro". - Por Alexandra Prado Coelho in:  http://jornal.publico.clix.pt/noticia/06-02-2010/requalificacao-do--bairro-da-cova-da-moura-esta-paralisada-18745392.htm

   Arquitectura  

Os habitantes da Cova da Moura já estão habituados a ver arquitectos e estudantes de arquitectura a estudar o bairro e a fazer trabalhos e propostas. Em 2008 foi a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) que desafiou os seus alunos a projectar um hotel para o bairro. Agora é a Trienal de Arquitectura 2010 que, na sua iniciativa inaugural, lança para as Escolas de Arquitectura o Concurso Cova da Moura. "Temos uma grande abertura para este tipo de trabalho em conjunto com a universidade", diz Lieve Meersschaert, da associação Moinho da Juventude. "Achamos que é uma mais-valia para os estudantes e para o bairro". Por enquanto é apenas um trabalho académico, mas se surgirem boas ideias estas podem vir a ser aproveitadas no futuro, admite. Levar os estudantes a debruçar-se "sobre uma realidade sociocultural densa e complexa", escreve na apresentação do concurso o director da Trienal, José Mateus, "obriga inevitavelmente a um difícil trabalho de leitura e interpretação dos dados em equação, a uma visão ampliada sobre a prática da arquitectura e sobre o seu significado para a vida da população". Os resultados do concurso serão apresentados numa exposição no Museu da Electricidade.

Iniciativa já está a resolver muitos problemas : O balanço é "positivo" na zona do Vale da Amoreira, Moita

A iniciativa Bairros Críticos chegou ao Vale da Amoreira, concelho da Moita, em 2006. Não abrange um bairro específico, mas toda a área da freguesia onde existem alguns aglomerados com graves problemas sociais. Sérgio Oliveira, do gabinete criado para o efeito na freguesia, faz um "balanço positivo" do trabalho que tem vindo a ser realizado. "Não é com uma intervenção destas que se resolvem todos os problemas, mas é um caminho". O gabinete tem como função coordenar, em rede, as cerca de trinta associações parceiras. "O nosso trabalho é, essencialmente, o de lançar sementes para que, no fim do projecto, as instituições tenham métodos de trabalho e uma filosofia de partilha que permita a sustentabilidade das acções iniciadas agora."

No Vale da Amoreira, as várias acções já deram frutos. Exemplo disso é a requalificação do Bairro das Descobertas, onde moradores e associações tiveram uma participação fundamental. "Com o apoio da Faculdade de Arquitectura [da Universidade Técnica de Lisboa], foi possível definir até a diferenciação cromática dos edifícios. A reformulação do espaço público, nomeadamente em relação à segurança e aos aspectos ambientais, está a ser feita com base nessa participação. No âmbito do QREN, vai ser também possível avançar com outras obras já a partir de dia 24."

No âmbito desta iniciativa, vai ser ainda criado de raiz um centro de experimentação artística. O projecto, feito com base nas necessidades e ambições dos moradores, já está concluído e pronto para ser posto a concurso. "Vai ser um espaço adaptável, com uma black box, salas de formação, uma área de música com estúdios audiovisuais e um espaço para dança e expressão corporal. No fundo, um espaço que corresponde aos anseios da população, mas que também pode ser atractivo para pessoas de fora." Na área das artes, está em curso um projecto de pintura artística de empenas e fachadas de prédios. E já a partir de dia 22 entra em funcionamento um edifício multiserviços onde se vão reunir as valências e estruturas agora dispersas, como o Centro de Atendimento ao Imigrante e o gabinete de emprego, criados no âmbito da Iniciativa Bairros Críticos. Através deste gabinete de emprego foi possível colocar com sucesso no mercado de trabalho cerca de oitenta por centos dos formandos.

As áreas da formação e da criação de emprego e da requalificação urbana do espaço são aquelas em que têm surgido mais resultados. Augusto Sousa, da Rumo, uma organização não-governamental, considera, apesar de alguns problemas, que "esta iniciativa tem contribuído para levar até às pessoas as ofertas de formação existentes a nível nacional." Pedro Pinhal é o exemplo de um caso de sucesso. Entrou no projecto como monitor de actividades para os jovens quando integrava a direcção da Associação Angolana. Agora conseguiu o primeiro emprego e tornou-se membro activo na junta de freguesia local. Natália Abreu

O caso do Lagarteiro

Já passaram cinco anos e no Bairro do Lagarteiro, no Porto, está tudo praticamente na mesma. Cerca de 75 por cento da população continua a sobreviver à custa do Rendimento Social de Inserção e a prometida reabilitação ainda não bateu à porta. Juntamente com a Cova da Moura e o Vale da Amoreira, este bairro situado na zona de Campanhã foi considerado prioritário, no âmbito do programa Bairros Críticos, um projecto aprovado pelo Governo em 2005 e que envolvia oito ministérios. Mas, até hoje, nada feito. O atraso no programa esteve há pouco tempo em discussão na Assembleia da República, por iniciativa do Bloco de Esquerda. O partido questionou a demora das obras, disse que a reabilitação não está a ser levada a sério e criticou ainda o facto de o projecto não contemplar a criação de equipamentos sociais de apoio à população. O bairro é hoje composto por 13 blocos e tem mais de 400 fogos, construídos em 1973, onde habitam cerca de 2200 pessoas. Ana Rita Faria in: http://jornal.publico.clix.pt/

 

 
Mais artigos...
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Seguinte > Final >>

Pág. 1 de 9
English French German Portuguese Spanish
Membros : 26
Conteúdo : 5803
Favoritos web : 281
Visualizações de conteúdos : 211061
Design: Pravo & Printstyle & Contracts & Aerography.